Nesta espécie de manual, devem constar informações essenciais sobre  o projeto, que servem de base para sua criação e desenvolvimento como um todo. Segundo a roteirista Patrícia Leme, a Bíblia pode até mesmo ser um bom instrumento de venda do projeto.

Ao contrário do que o nome sugere, este manual não deve ser um documento muito extenso, pois a ideia é que seja consultado com rapidez em momentos em que alguma dúvida possa surgir. Portanto, uma boa Bíblia deve ser funcional. Nesta edição do Elementos do Projeto de Série, conversamos sobre a Bíblia e sua importância com a diretora e roteirista Carol Rodrigues, a roteirista e jurada na categoria de não-ficção do NETLABTV 2017 Hana Vaisman e a roteirista Patrícia Leme. Confira!
BÍBLIA: Documento completo de apresentação do projeto a ser produzido com conceito, enredo e personagens, sinopse dos episódios e o roteiro do piloto de uma série.
b. Documento que contém todos os elementos para a apresentação do projeto de uma série de TV para canais ou possíveis investidores.

HANA VAISMAN – ROTEIRISTA E JURADA DA CATEGORIA NÃO-FICÇÃO
A Bíblia é um documento que compila todas as informações importantes para que um roteirista que venha a colaborar para a série possa se alinhar com o que precisa escrever. É como se fosse um manual de instruções. Nela se explica o universo da série, a temática, a sinopse da temporada e de cada episódio, além da descrição dos personagens com seu arco ao longo da temporada (se for uma série com essa característica). A Bíblia alinha toda a equipe de roteiro para que se escreva sobre a mesma coisa, os mesmos personagens, no mesmo tom.

CAROL RODRIGUES – DIRETORA E ROTEIRISTA

Bíblia essencialmente é um documento em que você reúne os elementos necessários para se escrever uma determinada série. É um documento de apoio a qual os roteiristas recorrem quando têm alguma dúvida sobre os caminhos que uma série vai seguir. Quando se trabalha com a sala de roteiros, ele é uma ferramenta que cria essa intimidade dos roteiristas com o universo.

Da teoria à prática no mercado

A gente aprende na faculdade, ou nos cursos, que a Bíblia é geralmente um documento extenso, com biografias aprofundadas dos personagens, sugestões de matérias, elementos estilísticos uma série de coisas que mais atrapalham do que ajudam. Se é para ajudar você a criar um determinado tipo de série, tem que ser algo muito objetivo, muito instrumental. Essencialmente o que se tem na Bíblia é uma biografia bem objetiva dos personagens, inclusive trazendo ações e contradições, colocando o personagem em movimento. É o tipo de coisa que é só o início do processo. Com o tempo você pode ir introduzindo determinados elementos que ajudam a se construir uma temporada mais longa, mas tudo é muito direto. Lembro que quando aprendi o que era Bíblia, achava que ela tinha que ter 100/150 páginas, mas em geral tem 30, no máximo, quando se trata de uma série multiplot. Com base nas minhas experiências, pelo menos, vi que na verdade é algo objetivo, construído conforme o andamento da própria série, e que os episódios muitas vezes servem muito mais como referencial, ou seja, quando você vai entrar na série você tem que ler os episódios, usar a Bíblia como esse lugar para onde você volta e usa como referência. Aqui no Brasil, das referências que tive, esse documento é muito enxuto, é uma ferramenta de consulta rápida, só para casos de extrema dúvida. Em geral, a sala de roteiro tem o criador da série como chefe ou parte integrante da sala, ou mesmo um assistente, alguém que está no projeto desde o início e que tem uma visão mais global, trazendo os elementos de forma mais direta para que a equipe desenhe os caminhos e o arco dramático de cada personagem.

PATRÍCIA LEME – ROTEIRISTA
A Bíblia é o documento que traz todos os elementos da sua série e deve conter, de uma maneira geral, a logline, o gênero, o tônus, o público-alvo, a franquia, sinopse do piloto, perfil dos personagens, universo, tema, arco da temporada e possíveis caminhos para novas temporadas. Apesar de parecer muita informação, o desafio é deixá-la o mais concisa possível. Fique com o que realmente importa e corte todas as gorduras e redundâncias. O tom da escrita da Bíblia também deve ser coerente com o gênero escolhido, assim você ajuda o leitor a mergulhar ainda mais no seu universo. A meu ver, a Bíblia é necessária em diferentes etapas. Na etapa da criação, a Bíblia é um instrumento que põe à prova nossas escolhas, nos fazendo pensar na estrutura, nos relacionamentos entre os personagens…Enquanto escreve a Bíblia, você literalmente testa se a sua ideia é realmente uma série e não apenas uma premissa interessante. O roteirista José Carvalho sempre diz que uma Bíblia eficiente tem que deixar claro qual é a franquia da série. Ou seja, ela deve trazer a resposta para a pergunta:  que objetivo/missão estou dando ao(s) meu(s) protagonista(s) para ele(s) ultrapassar(em) todas as temporadas?

A Bíblia também é um instrumento de venda do seu projeto. Se for clara, bem escrita, envolvente (e concisa!), o produtor ou o executivo do canal vai conseguir enxergar o potencial ali.E na última ponta, quando a série vai ser produzida, a Bíblia é um guia importante para outros roteiristas que também vão escrever a série. Ela garante que ninguém saia do trilho.

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